Os Descendentes dos Cristãos Novos no Brasil


Entrevista Sobrevivente do Holocausto e Descendente de Sobrevivente da Inquisição.

Entrevista Sobrevivente do Holocausto e Descendente de Sobrevivente da Inquisição.

Assista a live transmitida no dia 13 de agosto de 2020, onde o Rabino Ventura entrevista sobrevivente do holocausto e descendentes de sobreviventes da Inquisição. Emocionante! Não perca!

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Amilcar Linhares e o Fio da Linhagem

Amilcar Linhares e o Fio da Linhagem

Confira um texto emocionante de um dos descendentes do cristãos-novos, Amilcar Linhares , em busca da sua ancestralidade. Redação de André Tavares

Texto de André Tavares (membro Sinagoga Sem Fronteiras - MG/Brasil)

O que é que nos torna únicos ao mesmo tempo que nos faz pertencentes a algo maior que nós mesmos? Que processo psicológico e social é esse que definimos como identidade? Como consegue unir a realização da singularidade à segurança do pertencimento? É difícil responder a essas perguntas. Mas não estaria errado dizer que a identidade nos retira do anonimato e da ausência de sentido e nos insere numa comunidade de narrativa, dá-nos um lugar na cadeia entre o passado e o futuro. Estabelece um cenário ancestral e aponta um horizonte de realização.

Num contexto sociocultural como o nosso, no Brasil, em que a identidade não encontra símbolos compartilhados e sólidos, onde nos falta até mesmo uma compreensão clara dos eventos históricos e perfis bem construídos de personalidades históricas, não é surpresa que estejamos mergulhados nessa categoria, nessa classificação genérica de “brasileiro”. O sufixo -eiro designa, nesse caso, uma ocupação, uma profissão: aquele que vinha à costa extrair pau-brasil. Da mesma forma definem-se os mineiros, em Minas. É como se os acrianos fossem todos “seringueiros”. A ocupação não define. Falta-nos algo.

Da mesma forma que nosso passado carece de registro e clareza, nossas raízes familiares são nebulosas. Se o brasileiro não for filho, neto ou bisneto de imigrantes (sobretudo europeus), parece ter poucos motivos para marcar seu nome no registro dos povos e para orgulhar-se de sua origem. Os sobrenomes portugueses, toponímicos ou indígenas nos jogam na indistinção. Parece inútil voltar-se para os ancestrais e perguntar “quem sou?”. E não há quem desvele, de forma acessível seu significado, relevância e história. Os tomos que guardam os nomes e linhagens são guardados, quase sempre, por homens e trancas movidos somente por muita prata.

Mas a ausência de resposta para a questão da identidade, da origem, nem sempre é consequência do esquecimento. Antes, pode ser o resultado desejado: ocultar, dissimular, camuflar - às vezes tão bem que o rastro para a retomada perde-se. Ocultar para não desaparecer. E desaparecer para mostra-se em outro momento ou para outros olhos. Como a identidade: reconhecer-se em outros, ocultando-se, para perceber-se único e revelar-se.

Perguntar-se “quem sou” no Brasil é olhar para o oculto do visível. Avançar e perguntar-se pelo “quem somos” é adentrar no oculto do oculto. É colocar ouvidos antigos de pé, aguardando a senha. “Que eu sou, meu pai?”, “quem era o avô, meu pai?”, “quem era o bisavô, avô?”... A pergunta feita para fora faz girar, destravar, ranger algo dentro de si. Às vezes dói. Em alguns, é o suficiente para desistir, voltar para a lide cotidiana, o tempo atual, o fluxo. Para outros, é a ferida que desperta - “o que é isso que me aperta como uma memória?”. E o que foi perdido retorna à superfície.

                                                       

Ouvir a história de Amilcar Linhares é ser conduzido por uma experiência desse tipo, de busca pela identidade, de descoberta e redescoberta, de reencontro e afirmação. Nascido no Ceará, ainda muito jovem, na escola, foi apresentado por uma professora à história da Recife holandesa e dos judeus que vieram com Maurício de Nassau. Atipicamente, a professora fez menção aos judeus portugueses e espanhóis que permaneceram no Nordeste, mesmo depois da reconquista portuguesa, e que carregavam nomes característicos de animais e árvores. Além disso, pontuou que muitos deles deixaram descendência, ainda que sem consciência de sua origem. O jovem estudante imediatamente lembrou-se dos avós, o avô Carneiro e a avó Carvalho - “um é animal, a outra é planta: será que eu sou judeu?”.

Dias depois, essa pergunta que precisa encontrar resposta é lançada para a avó, em almoço familiar: “Vó, descobri que somos judeus!”. A avó, católica, de família antiga na região de Sobral não pode dizer outra coisa que não a negativa. A pergunta cala-se, volta a ocultar-se.

Mais tarde, quase dez anos depois, o avô paterno, José Aguiar Linhares Lima, falece. Toda partida exige um esforço da memória, o lugar da presença reminiscente de quem fez a passagem. Amilcar conta que tentou refazer a biografia do avô, sua trajetória, com pouco sucesso. Um ano depois, falece por sua vez a avó paterna, e a questão da memória e do desaparecimento diante da morte é novamente suscitada. A busca é retomada, triste e algo desesperada pela dor. Não é a questão pelos nossos mortos uma questão sobre o nosso próprio destino? Não nos perguntamos sempre se seguiremos deles o mesmo destino?

Buscando pelo avô, José Linhares, Amilcar encontra uma reportagem de um grande portal a respeito de uma família de Sobral que conseguira a cidadania portuguesa por meio da lei de reparação aos judeus sefarditas. A família citada era relacionada com seu avô, e a reportagem ainda dizia que os Linhares da região de Sobral muito provavelmente têm origens judaicas. Toda a matéria tinha o aval de um experiente genealogista, com décadas de pesquisa e especializado nas famílias da região de Sobral.

Começou, então, a busca por contato com o pesquisador. Depois de algumas tentativas frustradas de localizá-lo em Fortaleza, Amilcar lembrou-se que o avô, antes de morrer, pedira aos filhos e netos que reunissem dados a serem enviados para um editor, a fim de compor um livro sobre a família Linhares. Como nunca havia tido notícias do resultado da publicação, consultou uma das tias-avós, que se lembrava do projeto e, afortunadamente, do autor.

Depois de muita procura, Amilcar conseguiu entrar em contato com o genealogista. Quem sabe ele tivesse respostas para algumas de suas questões. O genealogista, depois das devidas apresentações por parte do primo, pediu o nome dos ancestrais, e diante da declinação dos nomes de Ana Linhares Figueiredo e Cícero Ribeira Lima (bisavós de Amilcar), reconheceu o parentesco, a origem judaica e a elegibilidade ao processo de cidadania portuguesa. E para maior espanto, o tio-avô de Amilcar, José Evaristo Linhares) era vizinho do genealogista!

A princípio, a motivação da busca, o que movia outros membros da família a cooperar na empreitada, era a cidadania portuguesa. Mas, para Amilcar, a questão da origem judaica começou a se desvelar. Era preciso, agora, urgentemente, compreender o que aconteceu, porque sua família fora perseguida, porque tivera que ocultar-se, esconder-se, negar-se a identidade judaica plena e total. Era necessário compreender o fenômeno da Inquisição, do antissemitismo, da história do povo judeu. E, logo nos primeiros passos desse novo desdobramento, encontrou os vídeos da Sinagoga Sem Fronteiras e do Rabino Ventura.

Amilcar saiu algumas vezes do interior de São Paulo, dirigindo quatrocentos quilômetros, para estar na sede da Sinagoga sem Fronteiras: “eu fazia isso porque precisava entender porque minha família foi perseguida”. Mas, nesse processo, mais do que entender os motivos da intolerância, encontrou uma expressão religiosa, uma contexto, um lugar onde, finalmente, “sentia algo”: “Havia frequentado outras religiões, mas não sentia nada, como se não fosse comigo. Na sinagoga, chorei com o Sidur, ao manuseá-lo, entendendo nada ou quase nada. Chorei com o anfitrião que ofereceu-me uma quipá. Com o testemunho de alguém que perdera o pai e doava três talitot. Chorava porque estava completo, era apresentado à minha casa”.

*Amilcar com sua kipá e sidur.

O pertencimento ao Judaísmo, ainda que como descendente, fez com que Amilcar procurasse sua linhagem materna. A única pista era um registro fotográfico da bisavó, morta em 1940, velada e sepultada em mortalha. Encontrou outro Linhares, o Nelsinho, com quem conseguiu mais indicações e apontamentos. O trabalho do genealogista já apontava para a descendência de Branca Dias. Quatro gerações ligadas à matriarca foram denunciadas, sofreram processo na Inquisição, e foram aos autos de fé: Violante Dias, a própria Branca Dias, a filha, Inês Fernandes, e a neta, Maria de Paiva (denunciadas).


*trisavós de Amilcar Linhares  (José Maximiano Linhares Figueredo e Francisca Camelo de Paiva)


Um fato curioso foi como Maria de Paiva e seus filhos se livraram dos processos quando denunciados. Maria era esposa de Agostinho de Holanda, filho de Brites Mendes e de um nobre holandês, Arnaud van Holland. Este alardeava que era sobrinho do Papa Adriano VI, irmão de sua mãe. Não se sabe até hoje a veracidade da alegação, mas a família de Maria de Paiva conseguiu dissuadir os familiares do Santo Ofício de abrirem o processo. A família de Amilcar descende de Maria de Paiva. Seu nome remetia a um legado, uma história, um drama, possuía raízes às quais, agora, percebia as conexões.

                                                  

As duas décadas entre o “descobri que somos judeus” e a emergências de uma profusão de dados genealógicos e históricos parecem muito. Mas não são. Em pouco tempo Amilcar encontrou suas origens, sua história. Lançou luz sobre o passado de sua família e pode compartilhá-la. Ganhou um caminho. Na caminhada descobriu-se. Chorou. Ganhou irmãos. Como ele mesmo diz, “encontrou-se e completou-se”.

A pergunta “quem sou/quem somos”, feita em atenção a esse movimento interno que mais que um estado individual, faz as coisas se moverem. A Sinagoga Sem Fronteiras e o movimento de retorno dos judeus e descendentes de judeus perdidos entre as nações acreditam na sinergia, na ação milagrosa do Eterno em atenção e cuidado ao Povo de Israel e de cada judeu.

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