Costumes Judaicos no Nordeste Brasileiro


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Costumes Judaicos no Nordeste Brasileiro

A mulher sefardita e a manutenção dos costumes

A área de influência da mulher sefardita (como de qualquer mulher) era a esfera doméstica. Entretanto, não podemos absolutizar esta característica, pois vários são os exemplos de mulheres judias que se notabilizaram por suas atividades de donas de engenhos ou de comerciantes, participando ativamente na gestão dos negócios da família. No Nordeste o exemplo mais marcante é o de Branca Dias, presa, condenada e deportada para o Brasil por práticas judaizantes, e novamente deportada para Lisboa pela Inquisição pelos mesmos motivos, mesmo depois de morta. A vida de Branca Dias flutua entre a História e a lenda. Paraíba e Pernambuco reivindicam para si seu domicílio. Entretanto, esta questão permanece inconclusa, visto que nos primórdios da colonização estes dois Estados formavam uma só capitania. Denunciada e presa pela Inquisição, ainda em Lisboa, Branca Dias foi desterrada para o Brasil. Aqui ela chegou juntamente com seus sete filhos e veio ao encontro de seu marido, Diogo Dias Fernandes, que já se encontrava em terras nordestinas desterrado também. Como tantos outros judeus que aqui chegaram, eles eram senhores de engenho. Mas, segundo consta, ela e seu marido possuíam uma Torah e faziam “esnoga”, ou seja, culto religioso, no Engenho Camaragibe, de propriedade de Bento Dias Santiago. O sinal de convocação para o culto era dado por uma pessoa que passava pela vila com os pés descalços tendo um lenço vermelho amarrado ao tornozelo. Essa pessoa era chamada de “o campainha”. Muitos “campainhas” foram denunciados à Inquisição na primeira visita do Santo Ofício ao Nordeste, em finais do século XVI. Nessa ocasião os filhos e netos de Branca Dias foram presos e enviados para Lisboa sob a acusação de reconversão ao judaísmo. Branca Dias e seu marido já eram falecidos, mas, diz a lenda que mesmo assim foram processados e que seus ossos foram enviados à Portugal para serem queimados no Rossio. Embora seja a figura feminina mais famosa, Branca Dias é uma entre muitas mulheres que se propuseram a manter suas crenças, aberta ou veladamente. Na sua “pequena” esfera de influência a mulher judia conseguiu criar e sustentar verdadeiras redes de sociabilidade.A esfera doméstica foi determinante para a manutenção da comunidade. Por ela passavam as estratégias matrimoniais, os costumes e a religiosidade através da educação das novas gerações

Palavras, nomes e expressões de origem Sefarditas

A vinda dos portugueses para o Brasil trouxe consigo todos os empréstimos culturais e lingüísticos que já haviam sido incorporados ao cotidiano ibérico. Azeite, por exemplo, vem do hebraico “ha-zait”, literalmente “a azeitona”, e “ladino”, que signi fica astucioso, designa o dialeto usado pelos judeus que migraram para a Península Ibérica. Porém, a maior parte dos hebraísmos chegou ao português por influência do cato li cis mo, fazendo escala no grego e no latim eclesiásticos, quase sempre relacionados a conceitos religiosos, tais como: aleluia, amém, bálsamo, cabala, éden, fariseu, hosana, jubileu, maná, messias, satanás, páscoa, querubim, sábado, serafim e muitos outros. Sobrenomes muito comuns, tanto no Brasil como em Portugal, podem ser atribuídos a uma origem sefardita. Supõe-se que ABREU seja uma variante de hebreu, BRITO de brit milá que significa “circuncisão”, BARROS vem de Baruch que significa “graça” e “agradecimento” e SANTOS vem de Shem Tov que significa literalmente “bom nome”. Outros exemplos são: Alves, Bacelar, Carvalho, Coelho, Duarte, Fernandes, Gonçalves, Lima, Silva, Silveira, Machado, Paiva, Pina, Miranda, Rocha, Valadares, etc. Porém é importante ressaltar que não se pode afirmar que todo brasileiro que porte estes sobrenomes seja descendente direto de judeus. Para se ter certeza é necessária uma pesquisa profunda da árvore genealógica das famílias.

“Pensar na morte da Bezerra”. Esta frase, comumente dita pelos sertanejos de hoje para se referir a alguém que está com ares de preocupação, está registrada nas denunciações e confissões feitas ao Santo Ofício e se referem à Torah. Era feito um jogo entre as palavras Torah e “toura” (feminino do touro), daí “bezerra”.

“Passar a mão na cabeça”, com o sentido de perdoar, vem da maneira judaica de abençoar, passando a mão pela cabeça e descendo pela face.

“Seridó”, região no Rio Grande do Norte, tem seu nome originário da forma hebraica contraída “sarid”, que significa “refúgio de”. Em hebraico, a palavra Sarid significa sobrevivente. Acrescentando-se o sufixo ó, temos a tradução sobrevivente de. A variação Serid, “o que escapou”, pode ser traduzido também por refúgio. Desse modo, a tradução para o nome seridó seria refúgio dele ou seus sobreviventes. Uma outra interpretação é dada por Câmara Cascudo, indicando uma origem indígena “ceri-toh”.

“Passar mel na boca”. Essa expressão é corrente no Nordeste. Na circuncisão o rabino passa mel na boca da criança para evitar o choro. Daí a origem da expressão. “Para o santo”. O hábito sertanejo de derramar uma parte do cálice antes de beber, tem raízes no rito hebraico milenar de reservar, na festa de Pessach (Páscoa), um copo de vinho para o profeta Elias, representando o Messias que virá.

Que massada!” Expressão usada para se referir a um contratempo. É uma alusão à fortaleza de Massada, na região do Mar Morto, e ao suicídio coletivo de judeus para não se renderem aos romanos, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo.

“Vestir a carapuça” vem da Idade Média inquisitorial, quando judeus eram obrigados a usar chapéus pontudos para serem identificados.

“Fazer mesuras” origina-se na reverência à Mezuzá, pergaminho com versículos afixado no batente direito das portas.

“Deus te crie” após o espirro de alguém é uma herança judaica da frase Hayim Tovim, que pode ser traduzido como, “saúde”, ou “tenha uma boa vida”.

“Pedir a bênção” aos pais ao sair e chegar em casa é uma prática judaica que remonta à benção sacerdotal, onde os pais abençoam os filhos, como no Shabat e no Ano Novo.

“Apontar estrelas faz crescer verrugas nos dedos”. Como o dia judaico começa na noite do dia anterior, o início de um dia era marcado pelo despontar da primeira estrela no céu. Assim o sábado (dia de celebração nas casas judaicas), começava com o despontar da primeira estrela no céu da sexta-feira. Se uma pessoa demonstrasse alguma reação publicamente com relação a tal estrela, ela seria alvo de suspeitas. Um adulto consegue conter-se, mas uma criança não. Então se dizia às crianças que apontar estrelas fazia crescer verrugas nos dedos.

Costumes sefarditas encontrados entre as famílias sertanejas

Muitos costumes judaicos que se perpetuaram na cultura nordestina se referem ao cotidiano das pessoas, aos usos domésticos, permitindo que eles fossem passados de uma geração a outra com tal naturalidade que seus praticantes sequer se davam (ou se dão) conta da origens de sua origem. Estes usos domésticos, por mais simples que fossem, eram os motivos alegados para a delação, justificando o segredo. Por exemplo, substituir a banha de porco pelo azeite no preparo dos alimentos era considerada uma prática judaizante, bem como não consumir crustáceos ou animais de casco fendido. Estes costumes ficaram tão arraigados que o nordestino contemporâneo de ascendência sefardita não cria porco, não faz uso de sua carne e derivados e não come qualquer tipo de crustáceo, embora, na maioria dos casos, ele não tenha consciência da origem de tais restrições, nem de inúmeras práticas e ritos que integram o seu cotidiano.

Ritos Alimentares

A prática de jejuns é estimulada. Um menino deve jejuar durante 24 horas antes de completar sete anos. No dia das núpcias os noivos e padrinhos devem jejuar. Jejuar no terceiro e oitavo dia após a morte de um parente. Jejuar um dia a cada três meses, durante um ano, após a morte de um parente. Jejuar durante a Semana Santa. Peixes de couro (sem escamas), moluscos e crustáceos são proibidos. É proibido comer carne com sangue. Ovos com mancha de sangue são jogados fora. Não de deve cozinhar carne e leite juntos. A ingestão do leite e da carne deve ter três horas de intervalo. É proibido comer carne de animal de sangue quente que não tiver sido sangrado. O abate do animal deve ser por esvaziamento do sangue. A carne deve ser lavada até ficar livre de todo o sangue. Come-se apenas comida preparada pela mãe ou pela avó materna. O pão é especialmente sagrado. Em sinal de respeito, costuma-se beijar qualquer pedaço de pão que tenha caído no chão.

Ritos de preparação e uso de ervas medicinais Preparar e ministrar os medicamentos feitos com plantas apenas nas horas “noni”. Dentro da preparação dos remédios caseiros, a base de plantas medicinais, as pessoas mais velhas informam que a quantidade da parte da planta utilizada (folha, semente, etc) não deve ser par. Assim sendo, não se deve usar dois (número par) “brotos de goiabeira” e sim três para se fazer um chá no combate a diarréia. A pesquisadora Lenilde Duarte de Sá 19 observou que em todas as fórmulas de medicamentos caseiros os ingredientes são sempre ímpares: 3, 5, 7, 9... Questionados, os informantes responderam: - Porque tem que ser “noni”! Este termo vem do latin “nona” (“noni” no plural), uma das horas em que os romanos e judeus dividiam o dia, e correspondia às três horas da tarde. Na concepção judaica o dia era dividido em quatro horas: A Primeira hora iniciava com o levantar do sol, a Terceira hora, iniciava às 9 horas, a Sexta hora iniciava ao meio-dia, e a Nona hora iniciava às 15 horas, ou três da tarde. Isto implica que o termo “noni” pode estar relacionado à divisão das horas, entretanto não justifica o uso dos ingredientes para o medicamentos apenas em número ímpar. É um desafio para a pesquisa. Ritos Devocionais Acender duas velas nas sextas-feiras à noite. É proibido fazer qualquer coisa na sexta-feira à noite, até mesmo tomar banho. Acender velas diante do oratório aos sábados e deixar queimar até o fim do dia. Acender oito velas no dia de Natal.

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