Os judeus, a ciência e os descobrimentos


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Os judeus, a ciência e os descobrimentos

O trabalho dos judeus como cartógrafos, astrônomos e matemáticos era uma tradição na Península Ibérica, e os portugueses, em especial, salientaram-se como exímios navegantes.

A moderna ciência da navegação estava intimamente ligada aos judeus que tinham experiência como homens do mar e pilotos de navios. A navegação informal, sem bases científicas, foi transformada em um processo preciso com a elaboração de equações matemáticas complexas e instrumentos inovadores. Em 1500, podiam-se encontrar nas embarcações aparelhos capazes de medir localizações de maneira precisa, além de mapas quase perfeitos.

Para navegar com segurança, eram necessários três elementos: os instrumentos, sendo os mais importantes o quadrante e o astrolábio; as tábuas astronômicas, sem as quais os instrumentos tinham utilidade limitada; e a teoria astronômica ou cosmológica.

O conhecimento específico sobre área é antigo, e já no Talmud de Jerusalém é possível ver a estrutura do universo em forma de globo. No Zohar (Esplendor), afirmava-se que a Terra girava sobre seu eixo como uma bola e, enquanto em uma metade do globo era dia, na outra havia escuridão. Uma das principais obras sobre astronomia foi o Surat ha Ares (Forma da Terra), um tratado sobre a formação dos céus e da Terra. O livro foi escrito por Abraão bar Hiyya em Barcelona, no início do século XII, e tinha como objetivo ensinar conceitos rudimentares de matemática e astronomia. Importante também toi Yesod Olam (A base do Universo), escrito em Toledo, em 1310, por Isaac Israeli que aborda o calendário judaico e discute detalhadamente os movimentos do Sol e da Lua, assim como a geometria e a trigonometria envolvidas, fornecendo tabelas minuciosas.

Entre 1262 e 1272, também em Toledo, na corte de Afonso, o Sábio, foram compostas as famosas Tábuas afonsinas por dois astrônomos judeus: Isaac Ibn Sid e Judah Ben Moses Cohen (ou Judah Ibn Mosca). Nessa obra encontramos, minuciosamente descritas, as "tábuas" elaboradas para determinar a localização dos astros na esfera celeste. Após a invenção da imprensa, o livro foi várias vezes impresso e teve a última edição consultada por Kepler e Galileu.

No século XV, o príncipe Henrique, o Navegador (1394-1460), conhecedor da tradição científica dos judeus, mostrou enorme interesse em atraí-los para Portugal. Formou um grupo de cientistas que faziam parte da famosa Escola de Sagres, que contribuiu decisivamente para as aventuras marítimas portuguesas.

O rei D. João I, Mestre de Avis (1357-1433) e pai de D. Henrique, o Navegador, estendeu aos cientistas judeus numerosos privilégios e valeu-se de seus conhecimentos para resolver diversas questões, como determinar os ciclos lunares e a altura das marés, usando os cálculos do astrônomo judeu Abraão Cresques. A família Cresques, aliás, havia gerações se destacava pela perícia na arte da cartografia. Abraão, autor do Atlas catalão (1375) ou Mapa-múndi, recebeu o título de "mestre de mapas e compassos".

Os judeus destacaram-se também na construção de instrumentos astronômicos, como Isaac Naffucci, especialista na arte da execução de relógios e quadrantes. O quadrante era um instrumento que se baseava na altura da Estrela Polar e permitia determinar a distância entre o ponto de partida e o local da embarcação.

O astrolábio foi aperfeiçoado e teve papel fundamental nas navegações, pois era o instrumento mais preciso para fixar o ângulo exato do sol do meio-dia sobre o horizonte. Foi adotado por astrônomos e astrólogos da Península Ibérica, que dominavam a sua construção e o seu uso a partir de um conjunto de tratados escritos em árabe, hebraico e latim. O mais antigo desses tratados foi redigido em árabe, por um judeu iraquiano de nome Mashallah, por volta do ano 800.

D. João II fundou a Comissão de Matemática. Os trabalhos teóricos dos cientistas judeus foram valorizados pelo rei, que os convidou para integrar a sua comissão. Entre eles estava Abraão Zacuto (1450-1510), médico, astrônomo e matemático, nascido em Salamanca, na Espanha, onde passou a infância e a juventude. Descendia de uma antiga família fixada no norte da Península Ibérica após a expulsão da França, no início do século XIV (1309). "O astrônomo do rei João", como era chamado, foi quem noticiou ao monarca as descobertas de Cristóvão Colombo.

Também elaborou um conjunto de tábuas matemáticas para a Universidade de Salamanca. Escreveu, em hebraico, o Hachibbur Hagadol, Almanaque perpétuo. As tábuas foram calculadas para 1473 (ano raiz), e o texto do Almanaque provavelmente foi escrito nesta data. Não é um livro teórico de astronomia, mas reproduz o movimento dos astros por referência a determinadas coordenadas astronômicas, designadas por efemérides. Antes das tabelas, há um conjunto de regras destinadas à explicação de seu uso, na determinação da posição dos astros, do momento dos eclipses e outras utilizações de caráter astronômico e astrológico. O Almanaque perpétuo, de grande importância para a náutica portuguesa, foi usado por Vasco da Gama e reeditado em Leiria em 1496, traduzido pelo mestre cristão-novo José Vecinho.

Fugindo da conversão ao cristianismo na Espanha, em 1492, Zacuto exilou-se em Portugal. Quando o rei D. Manuel decretou a expulsão dos judeus do país em 1446 (ordem que, em l497, foi transformada em conversão forçada ao cristianismo), Zacuto saiu de Portugal em direção ao Império Otomano, onde faleceu em 1510.

Cristóvão Colombo foi o responsável por garantir a posse das terras americanas à Espanha. A proposta que apresentou aos reis foi inteiramente financiada por dois judeus conversos, Luis de Santángel e Gabriel Sánchez. As origens judaicas de Colombo têm sido discutidas pelos historiadores. O fato de, propositadamente, ter mudado o horário de partida das naves para embarcar judeus convertidos é uma das evidências sobre sua descendência. A primeira frase de seu diário de bordo é muito significativa; "No dia em que os judeus foram expulsos da Espanha, eu iniciei minha viagem". A primeira menção de Colombo sobre a descoberta da América não foi ao rei, mas a seu amigo Luis de Santángel. Colombo deixou todos os seus bens para amigos conversos. que moravam no gueto.

Gaspar da Gama foi outro grande personagem de origem judaica. Acompanhou Vasco da Gama em suas viagens como conselheiro e intérprete, prestando grandes serviços aos navegadores portugueses. Gaspar era judeu (provavelmente polonês) e foi capturado por Vasco da Gama na ilha de Angediva, porto de escala em sua viagem de regresso do Oriente, em 1498. O navegador o levou para Lisboa, onde o rei D. Manuel o fez cavaleiro de sua casa, cobriu-o de honrarias e deu-lhe uma tença vitalícia, no mesmo valor que recebia o governador das Índias. De anônimo cativo passou a conselheiro de reis e príncipes.

Convertido ao cristianismo por Vasco da Gama, tomou seu sobrenome. Poliglota, Gaspar da Gama esteve na armada de Pedro Álvares Cabral em 1500, como seu conselheiro, pelo conhecimento que tinha das terras e gentes da Índia.


Fonte: NOVINSKY, Anita. Os Judeus Que construíram o Brasil: Fontes Inéditas Para Uma Nova Visão da História. São Paulo. Planeta do Brasil, 2015. p. 29 - 33.